
Continuando a seqüencia de espetáculos da adaptação do livro de Euclides da Cunha para o teatro, esta semana foi a vez de ver o princípio do fim, em
A Luta I – 1ª, 2ª e 3ª Expedições + Rua do Ouvidor.
No espetáculo anterior, vimos a formação da população de Canudos, uma multidão de excluídos e de oprimidos que perambulavam pelo sertão da Bahia atrás de seu líder político e religioso, Antônio Conselheiro.
A Luta I começa quando o povo de Canudos encomenda madeira para a construção da Igreja Nova de Canudos, mas a entrega é proibida pelo governo. A legião decide saquear as maiores cidades da região para conseguir o material para a construção do grande templo. O governo, então, envia tropas para conter os foras-da-lei.
São três expedições fracassadas que mostram duas frentes perdidas: a população de Canudos engajada para proteger sua terra e seus ideais, porém com poucos recursos bélicos para se defender. Por outro lado, um exército bastante prejudicado por não conhecer absolutamente nada sobre a geografia e condições climáticas da região, o que se torna um trunfo para o povo de Canudos.
Há uma notável evolução na composição visual das cenas – há momentos realmente deslumbrantes e emocionantes – para mim, um dos momentos mais belos foi o ritual de plantação dos mortos ao término da segunda expedição, em que a platéia recebe velas e, em fila, seguem cantando para dentro das “catacumbas” do Oficina, atravessando o imenso teatro por seu subsolo.
Assim como nas outras partes, há vários momentos divertidíssimos em que a platéia participa ativamente do espetáculo. Porém a Luta I é um pouco menos alegórica do que as partes anteriores. Há mais momentos em que apenas os atores encenam, fazendo com que a platéia permaneça por mais tempo nas arquibancadas. Por isso, os espectadores acabam sentindo mais o peso das 6 horas e meia de espetáculo - particularmente, esta foi a primeira vez que fiquei cansado desde o início das 30 horas de aventura sertaneja.
Mas este detalhe não diminui em nada este espetáculo fantástico, catártico e visceral - três adjetivos que eu não consigo dissociar desstes espetáculos de forma alguma. Apesar de eu ainda preferir o Homem I e o Homem II, esta quarta parte também foi fabulosa.
E no final, após os intermináveis aplausos ao elenco gigantesco, já durante a tradicional dança macumbástica antes da saída do público, Zé Celso pede uma pausa: ciente do cansaço que todos estavam após sobretudo a terceira expedição, ele pede a toda a platéia que se concentre na pista-passarela-palco do Oficina. “Agora é a vez de vocês virem aqui ao centro e nós do elenco que vamos subir nas arquibancadas para aplaudir vocês, este público heróico.” Heróico por ter acompanhado a aventura desde o começo, heróico por ter entrado no teatro às 8h da noite e saído às 2h30 da madrugada, e sobretudo heróico por estar ali contemplando e apoiando o que há de mais vanguardista no teatro paulistano.
Mais uma vez foi lindo e fascinante. Mais uma vez saí encantado e ansioso. Mas desta vez foi um pouco diferente, afinal, semana que vem é o fim deste fantástico ciclo. Apesar da certeza de que vou ver tudo novamente, ainda sim dá uma estranha sensação de vazio... Quando acabar, vai fazer falta...
Resenhas anteriores:
Os Sertões - A TerraOs Sertões - O Homem IOs Sertões - O Homem II