Talvez seja um pouquinho de mais do mesmo. Ia comentar o post abaixo com minhas impressões da peça mas vi que seria um comentário maior que o recomendável. Decidi postá-lo também.
Tenho preconceito com obras críticas. Geralmente elas são vazias, sensacionalistas e ignoram completamente aquilo que não as interessa. Fui ver "O Assalto" por curiosidade, não sabia que se tratava de uma crítica e apenas li que tinha sido censurada. Pensei que os moralistas da ditadura não gostaram do texto por ele tratar de uma relação homossexual. Ah, o que seria da gente sem as sinopses?
Fiquei bastante surpreso logo no começo. Iniciei minha auto-defesa -- pois não gosto muito de críticas, já disse -- e continuei a acompanhar as duas ótimas atuações. Em certo momento percebi que não era uma crítica como as outras, mas bem feita. A opção sexual do personagem não era um fim, mas um meio para ele chegar às suas reflexões sobre o mundo e as pessoas.
Ele já tinha um álibi: sua profissão estressante, estéril, inútil e repetitiva. Os agravantes eram seu chefe e sua solidão. O autor aproveita e atira para quase todo lado usando também o outro personagem, por vezes quase caricatural.
Durante a apresentação pensei em algo que, na verdade, é recorrente nas minhas divagações há tempos e foi mostrado ali com bastante verdade. Falo da mediocridade geral das pessoas. Todos estão conformados com suas situações, por piores que sejam, ou, no máximo, esboçam algum chateamento.
São as pessoas que reclamam dos juros do financiamento mas continuam consumindo inutilidades, as que nunca têm dinheiro mas não analisam seu orçamento, as que não têm tempo para a família e os amigos mas que se dão de corpo e alma para o trabalho.
Claro que são também a classe média pensante, leitora de revistas semanais e que faz o "grito dos incluídos" em Ipanema para protestar, no Sete de Setembro, contra essa violência que massacra o circuito Leblon-Copacabana.
(O
grito em questão foi organizado por um distinto empresário que teve seu carro roubado na Linha Vermelha, no Rio. "Uma de suas propostas é criar um conselho de representantes da sociedade para agir em questões como a violência", diz a reportagem. Cerca de trezentas pessoas compareceram ao encontro.)
José Vicente escreveu a peça em 1969, aos vinte e dois anos, e ela, mesmo sem o fator militar, continua atualíssima.