Primeiro houve uma imersão na terra (
A Terra), sua geografia, hidrografia, clima, fauna, flora. Depois, acompanhamos o surgimento e a evolução do pré-homem nessa terra até que surgissem as primeiras revoltas em função da terra (
O Homem I). E então ontem foi a hora de ver a terceira parte da maravilhosa epopéia d’Os Sertões de Euclides da Cunha.
Semana passada eu havia falado que o teatro do Oficina era visceral, não é mesmo? Pois bem, eu ainda não havia visto absolutamente NADA. As seis horas de espetáculo de ontem contavam a história de Antônio Conselheiro, líder religioso que surgiu no sertão brasileiro arrebanhando multidões de excluídos e causando a fúria da república recém-estabelecida no país.

Com essa multidão, caminhava também o sonho da construção de um grande templo religioso que poderia ser visto até mesmo do mar – aqui, Zé Celso transpõe para a história seu já famoso Teatro de Estádio, projeto de Lina Bo Bardi (que também projetou o fantástico Teatro Oficina) que é objeto de décadas de briga entre o Oficina e o Grupo Silvio Santos. O espetáculo termina com a imência da guerra entre a população de Canudos e as tropas da república: semana que vem é a vez de A Luta I.
E claro, não dá pra falar do Oficina sem falar de momentos catárticos. Fora as sempre presentes e hipnotizantes danças macumbásticas, ontem houve banquetes de frutas tropicais, uma divertidíssima e empolgada festa do beijo em que elenco e platéia, digamos que... se confraternizavam. E teve também o momento máximo da celebração do amor, em que elenco e algumas pessoas da platéia ficavam nuas e dançavam orgiasticamente sobre um mezanino de frente à parede de vidro do teatro. Certamente qualquer pessoa que não estivesse presente ou que não conhecesse o trabalho de Zé Celso diria tratar-se de uma grande putaria. Mas basta estar presente para se sentir imerso no universo mágico do teatro e ter certeza de que aquilo tudo era absolutamente pertinente e válido, e de forma alguma condenável – muito pelo contrário. Foi lindo, mesmo.

E para encerrar a noite de forma não menos catártica, já após os aplausos, surgem no meio da passarela gigantescas faixas de protesto a favor do “Teatro de Estádio” e da “Universidade de Culturas Orgyásticas”. Carregando estas faixas de lona, elenco e público, que nesse momento já não têm mais diferença alguma, saem do teatro e invadem (literalmente) o terreno ao lado, um estacionamento temporário instalado no terreno demolido onde Silvio Santos pretende construir um shopping center em vez do teatro projetado por Lina. Carregando uma das faixas, eu passava pelo portão enquanto o segurança o fechava, e uma atriz seminua saia correndo e gritando “Passem rápido, corram!”. Poucas pessoas conseguiram passar, mas a cena era absolutamente insólita: três faixas gigantescas passeavam pelo imenso terreno enquanto uma multidão que não havia conseguido entrar se aglomerava no portão. A banda tocava, Zé Celso dançava catarticamente no portão e a multidão o acompanhava. Demos algumas voltas pelo terreno, saímos, voltamos para o teatro, esticamos as faixas no chão, fizemos mais uma empolgada dança macumbástica e saímos... E lá fora ainda batemos um papo morno com Zé Celso, que é extremamente simpático.
E mais uma vez eu estou aqui, praticamente roendo as unhas para voltar lá semana que vem e assistir às oito horas da penúltima parte da epopéia.
- O que alarga tuas horas?
- Não ter o poder de abreviá-las.
(Shakespeare, Romeu e Julieta)