Fazia anos que eu não me conformava de nunca ter visto nenhum espetáculo do Teatro Oficina Uzyna Uzona, do maluco (e genial) José Celso Martinez Corrêa. Afinal sempre ouvi de todo mundo que todas as pessoas que gostam de teatro, fazem teatro e estudam teatro tinham obrigação de assistir a pelo menos alguma das cinco partes da adaptação do Oficina para Os Sertões de Euclides da Cunha. Mas os espetáculos que chegam a ter 8 horas de duração sempre me intimidavam.
Ontem, aproveitando que o Oficina está apresentando “Os Sertões – Obra Completa”, venci essa timidez e fui assistir “A Terra”, primeira e mais curta parte da epopéia. Se eu gostasse, tentaria assistir às demais. Saí do teatro e fui pra casa achando excelente. Hoje não consegui parar de pensar sobre o que vi ontem, e me dei conta de que foi um dos momentos teatrais mais catárticos que já vi na vida.

Pra começar, o começo. Ingressos na mão, muvuquinha esperando a equipe abrir a porta, destacar os ingressos, se sentar e aguardar a peça começar. Ingenuidade pura. Num instante, do outro lado dos portões, uma batucada altíssima revelada pela porta que se abre. Ainda não é hora da platéia entrar: todo o gigantesco elenco vem, com suas batucadas e suas danças, alegres, passam pelo meio do público boquiaberto, sem reação. Vão até a rua receber com muita cantoria o público que foi até lá para vê-los, para então entrarem todos juntos e dançando no gigantesco teatro em forma de passarela.
As quatro horas que se seguiram foram espetaculares, no sentido mais literal da palavra. Após um alongamento e um aquecimento de corpo, voz e a alma, estávamos submersos na transposição para o teatro da descrição geográfica que Euclides fez sobre a região de Canudos: relevo, hidrografia, vegetação, fauna... Este aspecto também torna alguns momentos cansativos, mas torna o espetáculo ainda mais nobre, pois não há forma mais sincera de se transcrever um livro para outra linguagem do que respeitando-o na íntegra, inclusive suas partes menos teatralizáveis.

Tudo o tempo todo no mais absoluto clima de festa, com muita música, muito canto, muita dança, muita alegoria, sempre contando com a participação ativa do público. Como bem constatou uma amiga, em alguns momentos parecia um barracão de escola de samba, mas era teatro, em um dos formatos mais generosos que já vi na vida. E esse clima de festa não anula também o clima ritualístico presente o tempo todo no teatro de Zé Celso, fazendo de “A Terra” um grandioso e autêntico culto a Dionísio.