Já fazem quase dois meses que assisti à peça "Os 120 dias de Sodoma", da companhia Os Satyros e baseada no livro homônimo do Marquês de Sade. Na época, na euforia de
escrever no blog, limitei-me apenas a dizer que a peça é boa e compará-la a "A Filosofia na Alcova", outra adaptação de Sade para o teatro realizada pelo mesmo grupo. Mas de um tempo para cá eu pensei um bocado sobre a peça e sobre Sade, e cheguei à conclusão de que eu fui muito injusto de falar tão pouco de uma peça tão marcante.
Logo de cara, o que pode-se afirmar do espetáculo é que se trata de uma produção grandiosa, e sobretudo extremamente corajosa. É preciso ter muita coragem para encenar Sade, não apenas pela temática sexual, mas principalmente pela complexidade da obra do autor, são poucos que compreendem seu trabalho. No caso da peça, o grupo se saiu extremamente bem.
"Os 120 dias" conta a história de quatro figuras do alto escalão do governo e da sociedade - os libertinos - que, com o objetivo de saciarem todos seus desejos e prazeres, se associam e se trancam em um castelo inacessível por 120 dias para a realização de um grande "deboche" em que se entregam inteiramente a todos seus desejos sexuais. Para isso, contratam duas cafetinas que escolhem e seqüestrarem jovens virgens que são usados como objetos de prazer durante o período. Também são contratados quatro algozes encarregados de manterem a ordem no castelo, os "fodedores". Ao longo deste período de 120 dias os jovens vão sendo gradualmente humilhados, estuprados e assassinados, de acordo com as regras estipuladas, para o deleite dos organizadores.
O que torna o texto tão fascinante e tão rico está na verdade no subtexto, nas alegorias que Sade utiliza para transmitir sua denúncia política, nas metáforas presentes em toda a sua obra e que fazem dele um escritor tão genial. E no caso da adaptação de Rodolfo Garcia Vázquez para os palcos, este caráter alegórico do texto de Sade foi reforçado com uma ótima adaptação para a sociedade brasileira, convertendo os libertinos em personagens da atual política tupiniquim, o que nos mostra o quanto texto de Sade é absolutamente atual.
Teatralmente a montagem também é primorosa porque é impossível que a platéia saia do espetáculo indiferente com relação a tudo aquilo que acabou de ver. O sentimento de contradição que passa pela cabeça durante toda a peça é absolutamente perturbador: em alguns momentos nos identificamos com o humor corrosivo e com a crueldade apresentada, em outros, nos sentimos horrorizados e constrangidos com os mesmos atos. E após o final apoteótico, subimos as escadas ainda tontos, com a certeza de que existe algo de muito, muito podre em nossa sociedade e em nós mesmos.