
Se tivesse que usar uma única palavra para definir
Os 120 Dias de Sodoma, a mais nova adaptação dos Satyros para um texto do Marquês de Sade, certamente a palavra seria coragem. Muito mais ousada do que a adaptação anterior,
A Filosofia na Alcova, este novo espetáculo conta a história de quatro libertinos que se isolam em um castelo por 120 dias para se dedicarem puramente à satisfação de seus prazeres. Para isso, arrebanham uma porção de garotos e garotas virgens que serão suas vítimas durante este período, além de duas “contadoras de histórias” do submundo e quatro “fodedores”, que serviriam de algozes e mantenedores das leis instauradas dentro do castelo.
“120 Dias” supera a “Filosofia” em quase todos os pontos. A visão política e cáustica de Sade é muito mais transparente e aqui passa a ser o fio condutor da história, inclusive desenhando um paralelo excelente com a realidade brasileira, a escolha do Espaço dos Satyros Dois, que é bem mais versátil que o Um, permite uma disposição de público interessante e que enriquece muito as cenas, a produção é mais caprichada e sem os exageros da montagem anterior e a participação do público é menos lúdica e mais incômoda, totalmente pertinente com a mensagem da peça.
O único ponto em que a “Filosofia” ainda supera os “120 Dias” é justamente no quesito choque: lá o “sadismo de Sade” mostra-se ainda mais forte, o espetáculo é bem mais vertiginoso, mais intenso. Enquanto a peça atual é muito mais catártica, a primeira era muito mais claustrofóbica e perturbadora. Sem dúvidas, são dois grandes espetáculos, mas prefiro muito mais este segundo.