Tem faltado teatralidade no teatro. É paradoxal, mas é isso que está acontecendo com o teatro comercial paulistano. Ultimamente eu tenho visto vários espetáculos em que a linguagem do teatro, que é o que deveria impulsioná-lo, tem ficado em segundo plano, dando lugar à linguagem televisiva, que é uma espécie de câncer dos palcos.

Um exemplo claro disso que estou falando é a peça
Até que o virtual nos ampare, em cartaz no Centro da Terra (
by the way, boa escolha de teatro: na minha opinião, quanto menor, melhor). Com produção caprichadinha e elenco honesto, conta a história de uma mulher bem-sucedida economicamente, mas emocional e afetivamente carente, e que encontra na internet seu refúgio. O enredo em si já tem um porém: o fato de ser bastante datado, uma vez que o booom da internet já passou há algum tempo e hoje a questão dos relacionamentos virtuais já está alguns passos à frente do que é apresentado em cena. Mas a tentativa ainda sim é válida, e o questionamento do virtual
versus real ainda é válido, apesar da exploração aquém do que o tema permite.
Mas o grande problema da peça é a linguagem da TV: discussões de casal no melhor estilo de novela das oito, uma personagem espalhafatosa com trejeitos no melhor estilo Caco Antibes em
Sai de Baixo, e um mordomo que, ao falar com a amiga no telefone, é a versão masculina (ou nem tanto) da protagonista da sitcom
A Diarista.
E para amarrar a saladinha televisiva, o roteiro possui uma fragmentação de cenas que beneficiam muito pouco a dinâmica do teatro. Como resolver isso, uma vez que normalmente não é possível editar uma peça da mesma forma como se edita um videotape? Simples: usando o bom e velho recurso da muleta cênica, que no caso desta peça tem a forma de cubos modulares, que se montam e desmontam compondo cenários.
Eles causam um efeito estético e lúdico bastante interessante, mas se analisarmos, são um ponto de apoio necessário para que cada mudança de cena faça sentido, e para que os atores tenham algo para fazer no palco - na TV é muito mais fácil quando a câmera focaliza apenas no rosto, e não nas ações (ou falta de ações) do corpo todo...
Enfim, falta teatro. Não só nesta peça, mas na maioria das peças em cartaz na cidade, sobretudo as comerciais. Falta transportar o público fisicamente para um outro mundo, não torná-lo telespectador de uma novela ao vivo. Linguagem de teatro não é apenas empostar a voz e utilizar movimentos e posições de cena específicos. É fazer com que o público não se sinta como se estivesse vendo uma história coreografada, mas sim
transportado para dentro desta história de alguma forma.
Quando o Teatro da Vertigem coloca o público num barco no rio Tietê eles não querem chamar atenção, eles querem que o público entre no espetáculo,
literalmente. Quando os Satyros encenam qualquer espetáculo em seu teatrinho claustrofóbico, eles não querem que o público seja espectador, mas cúmplice daquilo que está acontecendo, mesmo que sejam as mais absurdas e obscuras perversões do Marquês de Sade. Quando Zé Celso promove seu carnaval cênico no Teatro Oficina, ele não quer uma putaria generalizada, ele quer que o público seja parte integrante de sua arte. Até mesmo quando Felipe Hirsch utiliza seus recursos cinematográficos e suas trilhas espetaculares, ele os usa como recursos estéticos para embelezar um trabalho que é essencialmente teatral. E todo trabalho essencialmente teatral precisa ter a cumplicidade do público, porque sem a cumplicidade do público, surge a chamada quarta parede, e o teatro passa a ser apenas uma telenovela ao vivo. E então deixa de ser teatro.