
A segunda montagem dos Satyros de um texto da dramaturga alemã Dea Loher é uma peça sobre possibilidades: o paradoxo gerado pelas possibilidades que estão ao nosso alcance e o peso das possibilidades que tivemos no passado e não aproveitamos. Desta forma, as histórias fragmentadas dos personagens acabam girando todas em torno do
se:
se eu tivesse salvo a mulher que se afogava,
se eu for pego pela imigração,
se meu marido olhasse para mim,
se eu pudesse enxergar,
se eu pudesse ser Deus,
se eu tivesse alguém que me chamasse de mãe,
se eu trabalhasse num posto de gasolina...
Diante de tais questionamentos e diante da perda de suas ideologias, convicções e esperanças, os personagens tentam encontrar forças para continuar vivendo ou para acabar de uma vez com todo esse sofrimento. Em outras palavras, Inocência fala basicamente sobre o conceito sociológico da anomia, estado da sociedade contemporânea em que, sem padrões de conduta e de crença, o indivíduo entra em crise porque não consegue se conformar com as necessidades contraditórias impostas pela sociedade. Mas tudo isso é ilustrado de uma forma extremamente poética, como a sociologia ainda é incapaz de transmitir com suas definições.
A montagem usa e abusa de elementos espalhafatosos e forçadamente artifciais que remetem à estética
camp, além da utilização de recursos visuais como projeções de vídeo e de retroprojetor. Esses elementos juntos causam um estranhamento visual e um certo contraste com a densidade do texto, deixando o resultado final atraente e propositadamente sujo. Tudo isso somado ao dinamismo e o capricho com que as cenas foram construídas no palco e ao cuidado com que os personagens foram elaborados, fazem com que o resultado final seja um espetáculo extremamente lírico e bonito.