
Isabella é cega, mas enxerga graças a uma filmadora minúscula instalada em seus óculos e que projetam as imagens diretamente em seu cérebro. Passou sua infância isolada com seus pais adotivos em uma ilha com um farol, e a única coisa que sabe de seu pai biológico é que ele foi um príncipe do deserto desaparecido. Algum tempo após a morte de sua mãe adotiva, Isabella parte para Paris e se instala em um quarto recheado de artefatos africanos. Inicia-se então uma história repleta de descobertas e de paixões.
Este é um resumo da história de
La Chambre d'Isabella, espetáculo que mescla teatro e dança da companhia belga Needcompany e que foi apresentado esta semana em São Paulo como parte da Temporada SESC de Artes. Em muitos momentos, a impressão é que não estamos diante de um grupo de teatro, mas sim de um grupo de contadores de histórias fantásticas: a força da história está muito mais concentrada na narração do que na dramatização. Então eles saem dançando pelo imenso palco do teatro do SESC Vila Mariana e dissipa-se a imagem dos contadores de história e nos vemos diante de um grupo interessante de dança contemporânea.
É nítido que a construção dos personagens é uma das preocupações minoritárias no espetáculo: são poucos os atores que conseguem manter seu personagem bem definido do começo ao fim do espetáculo, claramente a preocupação está voltada para a história em si. Até mesmo a ótima idéia de colocar duas atrizes para interpretar os lados direito e esquerdo do cérebro de Isabella, e do narrador que interoreta o ímpeto sexual da protagonista se perde. A composição cenográfica e a iluminação também são pobres e pouco aproveitadas, embora haja em cena uma infinidade de objetos e possibilidades riquíssima. As músicas são muito boas e algumas vozes são cativantes (sobretudo a da atriz que interpreta a mãe adotiva de Isabella, que em alguns momentos lembrou a voz de Björk).
Em síntese, trata-se de um espetáculo extremamente (pra não dizer demasiadamente) pós-moderno, e medindo prós e contras, apesar de não ser imperdível, é no mínimo curioso.