A Itália tem um histórico de cinema político e um histórico de comédias. Nanni Moretti junta tudo e faz um ótimo filme sobre (mas não só) Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano por três mandatos consecutivos.
Bruno é um produtor em apuros e precisa de um novo roteiro. Seu projeto de épico sobre Colombo não vai sair e ele encontra uma nova diretora querendo filmar "O crocodilo", dura crítica a Berlusconi. Sem se dar conta do conteúdo explosivo, apresenta o projeto à RAI, que nega o apoio dizendo que não tem dinheiro. É óbvio que o problema não é esse.
A TV italiana só liberaria o dinheiro se o filme tivesse outro objetivo e se fosse uma daquelas produções oscarizáveis, detalhes importantes para que obtenha retorno financeiro. A partir desse ponto, Bruno toma o projeto para si e decide que vai filmá-lo de um jeito ou de outro, mesmo ele próprio sendo eleitor de Berlusconi.

Parece que o espectador precisa de um background de política italiana, mas só é necessário saber o mínimo. O filme conta todo o resto que, por coincidência ou não, é muito parecido com bastante daquilo que a gente vê no Brasil. O primeiro-ministro é um magnata das comunicações, elegeu-se e se viu envolvido em escândalos de corrupção. "De onde veio o dinheiro?", pergunta um personagem. A resposta aparece na cena em que uma grande mala lotada de liras cai do céu bem em cima da mesa do político. As notas voam pela sala enquanto ele olha meio incrédulo, meio maravilhado.
Disse no primeiro parágrafo que não é um filme apenas sobre Berlusconi porque há outras camadas na história. Existe, por exemplo, a preocupação que os italianos têm com a visão externa sobre seu país. Enquanto no Brasil a população dita esclarecida fica louca com filmes estrangeiros que retratam nosso cotidiano de forma virulenta, na Itália tem gente que se sente mal pelo chefe de Estado.
Há um tempo atrás todos vimos a vergonhosa participação de Berlusconi numa discussão no Parlamento Europeu, quando ele chamou um representante alemão para participar de um filme sobre o holocausto. Defendeu-se dizendo que estava sendo irônico. O final dos dois filmes -- o verdadeiro e o metalingüístico -- traz um futuro triste. "Eles riem da gente", é a conclusão da jovem diretora de "O crocodilo".