Este ano está sendo, sem a menor sombra de dúvida, o ano mais teatral da minha vida até agora. Nunca havia feito teatro com tanta dedicação e energia como em 2006, e nunca assisti a tantos espetáculos – cheguei a ver 5 peças em uma única semana.
Mas o mais bacana foi a qualidade das coisas que vi em 2006: a degradação do povo brasileiro no rio Tietê através do inesquecível BR-3 do Teatro da Vertigem, a desconcertante metáfora dos 120 dias de Sodoma dos Satyros, a energia do Paulo Autran e o capricho do Felipe Hirsch em O Avarento, a poesia visual de Inocência, dos Satyros, e ainda a comunhão e a catarse do Oficina Uzyna Uzona de Zé Celso com a obra completa de Os Sertões... A lista é um pouco maior, mas este ainda não é o momento de fazer um balanço, até porque o ano ainda não terminou.

Dentre as coisas que mais me chamarama atenção neste ano foi um espetáculo que encerrou hoje sua curtíssima temporada:
Anjo Negro de Nelson Rodrigues com a Lembrança de uma Revolução: A Missão de Heiner Müller. O espetáculo, dirigido pelo alemão Frank Castorf, possui uma das maiores doses de experimentalismo que já vi em minha vida, e isso o torna fabuloso.
Eu até tinha intenção de escrever mais sobre o espetáculo, mas ainda estou sem palavras para analisá-lo. Posso dizer que trata-se de uma montagem polêmica, indigesta e poderosa que nos mostra, através experimentações, metáforas visuais e muita piração, a desconstrução dos conceitos das diferenças raciais.
O que mais me interessou e o que acho que de fato torna o espetáculo poderoso na verdade está naquilo que o público não vê no resultado final, mas que transparece a todo momento: um processo de produção, ensaio e experimentação absolutamente intenso e profundo, realizado por atores competentes e totalmente entregues ao processo, e conduzidos por um diretor visionário. Uma pena ter ficado tão pouco tempo em cartaz. Uma pena que só consegui assistir uma vez.