Em tempos de "Turistas" -- filme no qual americanos vêm ao Brasil, são seqüestrados e levados pra selva -- Lúcia Murat filmou "Olhar estrangeiro" pra tentar entender de onde saiu o estereótipo brasileiro. A saber, a trinca mulatas-praia-festa, que grande parte da população estrangeira tem como visão distorcida deste país que canta e é feliz.
Franceses, aprendam: não tem mulheres perfeitas correndo atrás de você na Vieira Souto. Americanos, vocês também precisam saber que as moçoilas cariocas não fazem topless e tampouco andam com macacos presos a coleiras.

Essas duas cenas são apenas algumas das várias mostradas no documentário, que vão desde "Feitiço do Rio", de onde saiu o semi-nu tropical, até "Anaconda", terror-trash com Jennifer Lopez na Amazônia, e o incrível "Lambada - A dança proibida", quando uma garota da selva vai dançar o típico (?) ritmo brasileiro nos Estados Unidos. Senti falta de "Capoeira - O esporte sangrento".
Essa é a diversão de ver o trabalho. Pelas contas apresentadas, aproximadamente 220 filmes estrangeiros têm o Brasil como personagem importante e os produtores pinçaram alguns dos mais exóticos. Ver Brooke Shields fazendo uma espécie de esqui aquático em cima de jacarés é impagável. Ah, se a prefeitura do Rio resolvesse entrar na justiça contra cada filme, como fez depois de "Blame it on Lisa", aquele polêmico episódio dos Simpsons...
A pergunta que a diretora faz no início da projeção é boa, mas o resultado do documentário foi apenas regular por pecar onde não poderia. Fora o fato de haver tentativas bizarras de encostar produtores, diretores e atores na parede, Lúcia praticamente pediu para que todos fizessem mea-culpas e contassem para o mundo que o Brasil é muito mais que isso tudo aí.
Por azar, acabou também caindo em clichês, como quando um dos entrevistados disse que "nos EUA tudo é apenas dinheiro". Aposto que tem gente se contorcendo de prazer ao escutar isso, mas... é clichê. Não tem jeito. Todos os filmes que se passam num país diferente do de produção serão cheios de clichês e ponto. Mas nem é preciso ir tão longe. Assista a uma novela da Globo e tire suas conclusões. Qual é a novidade?
Ainda nos são mostradas pessoas que não sabem onde fica a floresta amazônica, como se isso fosse inadmissível. Uma visão bem provinciana, algo como se o estudo daquela região tivesse de se tornar currículo obrigatório nas escolas do mundo todo. Eu não sei onde nos Estados Unidos fica o Grand Canyon e também desconheço a localização e o sentido do rio Amarelo, na China. Acho que isso não me faz uma pessoa pior.
Às vezes me sentia vendo um filme do Michael Moore, daqueles que divertem mas não passam de simples acusações. Como Michael Caine disse em certa altura: "Querem ser vistos com mais seriedade? Nasçam feios. De onde eu vim todo mundo nasce feio e somos tratados como sérios". Garotas de Ipanema, tá dada a solução. Eu sou contra.