O nome dele é Karim Aïnouz. Apesar disso, é brasileiro do Ceará. Seu primeiro filme, "Madame Satã", foi bem recebido e agora Aïnouz está lançando o segundo, "O céu de Suely". Antes do início da sessão, ele contou que depois de "Madame Satã" decidiu fazer um filme menos urbano, meio que ao ar livre. O resultado foi belíssimo.
Belíssimo desde o começo, com imagens da protagonista Hermila/Suely brincando com seu namorado Mateus e narrando sobre sua gravidez. Ela decide sair de São Paulo e voltar para sua cidade-natal, no interior do Ceará, e fica à espera do amado. Como era de se esperar, ele não vai. Hermila fica muito desapontada, precisa de dinheiro para fazer algo da vida e resolve rifar o corpo.
Por vinte reais a pessoa concorre a "uma noite no paraíso". Uma receita explosiva: moradora vai para a cidade grande, volta para o sertão com um filho e vende o corpo. Cidade do interior, machista e conservadora por excelência, não combina com moça vinda da metrópole. Em certo momento, a mãe de Mateus explica para Hermila porque ela não deve ficar com raiva por seu filho tê-la abandonado: "Ele é um moço de vinte anos".
Alguns momentos de silêncio, cenas extremamente bonitas e cores. Há sempre uma imensidão azul do céu e algumas nuvens contrastando com o alaranjado da terra, resultando em planos lindos. E Hermila, que agora se chama Suely, diz que não é prostituta pois não vai dormir com todos. Fez a rifa para dormir com apenas um homem.
Ela volta mudada, com pelo menos um resquício visível da vida na capital, pois seu cabelo bicolor chama atenção na pequena Iguatu. Suas amigas e o cotidiano da cidade continuam os mesmos e inclusive fica uma certa sensação de ingenuidade na vida daquele local cujas poucas influências externas são mostradas através das músicas americanas em versões brasileiras. Como se a protagonista fosse agora um corpo estranho, ela se vê obrigada a sair da cidade e voltar para o Sul.
Os dois filmes de Karim Aïnouz são dos melhores nos últimos anos e ele comprova que é a maior aposta entre os novos cineastas do país. Este "O céu de Suely" é mais que recomendado.