
Tudo o que começa tem que acabar, bem ou mal. No caso da grandiosa empreitada épica do Teatro Oficina, acaba muito bem com a última parte de A Luta. A peça mais uma vez começou na rua, parando carros, criando um tenso clima de protesto, tornando a rua Jaceguai uma alusão à rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. A fantástica e provocante entrada do público, organizada por um exército hostil, transbordava o ufanismo e militarismo da república. Já lá dentro, acompanhamos todos os movimentos da quarta expedição do exército brasileiro, que massacrou a população sertaneja de Canudos, sempre sustentando a metáfora entre o fato histórico e a guerra que o grupo trava há 25 anos contra o Grupo Silvio Santos, que quer construir no entorno do teatro um shopping center em vez do teatro de estádio projetado originalmente.
O espetáculo é mais denso do que os demais, o que o deixa um pouco mais cansativo. Há menos interações com o público, e estas são menos intensas. Assim como também foi em A Luta I. Mas a produção d’A Luta II é a mais rica de todas, com efeitos visuais inteligentíssimos e cenas esteticamente fabulosas, e o triste final encerra o ciclo com muita beleza e lirismo. E a platéia extremamente reduzida em comparação às apresentações anteriores ainda ajudou a deixar o ambiente ainda mais melancólico.
E não tem como terminar essa maratona sem fazer um balanço. Para mim, que vi pela primeira vez cada um dos espetáculos em seqüência, foi um mês mágico. Foram 5 espetáculos, 125 reais gastos com ingressos e estacionamento, e um total de 27 horas de peça. Mas o que mais valeu foi a experiência inigualável de, todas as semanas, exorcisar todos os problemas e preocupações e mergulhar de cabeça no mundo dionisíaco e orgiástico regido com brilhantismo por José Celso Martinez Corrêa. E a cada semana, uma ansiedade ainda maior para voltar lá no terreiro eletrônico do Oficina e ver a continuação da história.
E agora que o ciclo termina, como o próprio subtítulo da peça diz, chega a hora do reinício. Considerando que todos os espetáculos ficarão em cartaz até o fim do ano, certamente em breve estarei mais uma vez diante daquele grande portão de ferro sendo recebido pelo grande elenco que sairá cantando cartarticamente.