Desde cedo tive medo, muito medo, daqueles considerados "artistas multimídia". Geralmente eles usam vídeos e som em suas instalações ultra-contemporâneas nas exposições e me deixam boquiaberto com a capacidade de se gastar energia elétrica tão facilmente. Numa das últimas Bienais havia uma televisão que passava constantemente, em repetição contínua, a construção (ou desconconstrução, não me lembro) de um barco de madeira. A obra terminava aí.

Miranda July, a moça da foto acima, é um desses artistas. A simples idéia de assistir a um filme dela me deixou preocupado, mas andaram falando tão bem de "Eu, você e todos nós", ganhador de vários prêmios, que resolvi comprar o ingresso. Pra minha sorte, não me arrependo de tê-lo visto. Seguindo uma linha "Encontros e Desencontros", é um filme em que nada acontece.
Christine (interpretada pela própria Miranda July) é, veja só, uma vídeo-artista problemática e conhece Richard, vendedor de sapatos recém-separado e problemático. Ele tem um vizinho gordo problemático que cria sonhos eróticos com duas meninas (problemáticas) da vizinhança, que usam o filho do Richard como cobaia num experimento, que tem um irmão muito esperto aos seis anos de idade. Há também Sylvie, uma menina com problemas e um pouco mais velha que o garoto pequeno.
O filme é formado a partir de várias pequenas histórias envolvendo os personagens e tem algumas cenas maravilhosas, como a caminhada de Christine e Richard até o carro, a conversa do filho mais velho dele com a vizinha pequena e, meu destaque, o passeio do peixe dourado em cima dos carros. Certas falas também me fizeram sorrir, como Richard contando que "estou preparado para coisas incríveis acontecerem" e Silvye dizendo ao filho mais velho que, se não houvesse gravidade e ele morasse no teto do quarto, "todas as coisas cairiam em cima de você, te soterrariam e você morreria". Se não fosse clichê, eu diria que é de sutileza única.