Em cinco de novembro de 2004 era uma sexta-feira e eu estava no Jockey Club daqui de São Paulo vendo uma apresentação do produtor kid606. Era quase 21h e ele tocava no laptop sua música eletrônica influenciada por hard techno, punk etc. Mas influência mesmo, e não só pra ele, a gente veria e ouviria ao vivo a partir das 21h27, horário que surgiram quatro sombras humanas na cortina e começou o show do Kraftwerk.
Quanto tempo durou? Umas duas horas? Deve ter sido, mas pareceram cinco minutos hipnóticos. Me arrepiei no começo de cada música e veio aquele nó na garganta típico de fortes emoções. Aliás, não cheguei a tanto mas vi pessoas chorando. Tem gente dizendo que música eletrônica não tem emoção... O público parecia desconhecer isso e inclusive cantava junto em alemão, francês, japonês ou inglês. Para mim o mais interessante foi pensar que estava vendo ao vivo os caras que deram origem a tanta coisa.
Foi também um êxtase visual pois era quase uma instalação artística multimídia: três telões atrás dos senis produtores mostravam animações, vídeos e fotos. Tudo meio construtivista. Uma profusão de bicicletas no Tour de France encheu nossos olhos quando tocaram a música que fizeram para essa corrida. Saíram e robôs voltaram para dizer que "we're charging our batteries" para os últimos minutos de apresentação. Então os alemães apareceram e nos lembraram que "music non stop". Fui embora do show com a sensação que a partir dali nada mais fazia sentido.
Sem emoção"Não é música", alguns falam. Vi comentários desse tipo quanto ao show do Daft Punk... É gente que não tem a cabeça aberta e acha que música é algo que só pode ter guitarra-baixo-bateria ou variações, chegando inclusive às aberrações micareteiras etc. Sigo abaixo com parte de um
texto escrito pelo Philip Sherburne no Pitchforkmedia.
I suspect that listeners raised on rock music often miss out on these unpredictable elements, expecting things to run in convenient increments of four bars. Listening for the verse and the chorus, the bridge, the middle eight, they assume that repetitive music is simplistic, underdeveloped, and they respond with the "I could do that" dismissal that Abstract Expressionists used to provoke. But on the contrary, it takes a lot of skill to juggle elements in this way, to modulate them so that every bar offers a surprise and every repeated riff sounds subtly, imperceptibly different.
I'm increasingly interested in the craft of electronic music. I realize that my choice of word can sound rockist-- "craft" itself conjuring something homespun, folksy, like arts and crafts. But sometimes craft simply is setting up your machines so that they interact in a fascinating way. You can tell when someone's put together a few loops in Reason or Live and simply let them run, without really listening to how those elements interact, without paying attention to what their true potential is.
I'm trying to explain to listeners who discount techno for being facile, uncomplicated, monotonous-- and many of these are listeners raised on rock-- how to listen for the hidden complexity, how to appreciate what is unique about certain strains of electronic music. Unique, and thrilling.
Música é muito mais que a visão clássica e essas duas bandas contaram, cada uma ao seu modo, histórias e viagens que muitas outras por aí não chegam perto. O Daft Punk contou como dois robôs se transformaram em humanos e o Kraftwerk mostrou três décadas de sons feitos com sintetizadores.
Fim de noiteDepois dos alemães, ainda tive o desprazer de ver Cansei de Ser Sexy, ali ainda uma bandinha desconhecida do mundo indie paulistano com integrantes que não sabiam tocar os instrumentos. O melhor show de todos e o pior deles na mesma noite. Dizem que agora as meninas sabem tocar guitarra -- pelo menos o Adriano Butcher já sabia tocar bateria desde sempre.
Por fim, a dupla 2manydjs, que já tinha vindo no Tim de 2003, no Rio. Voltaram com o projeto roqueiro chatinho Soulwax e seu projeto eletrônico original. É uma pena que tenham tocado apenas durante uma hora, pois aposto que teriam música pra mais umas duas. Começaram com Kraftwerk e terminaram com Primal Scream, que se apresentaria no dia seguinte.
Saindo da tenda, vi os prédios da rua Franz Schubert, do outro lado do rio, e percebi que tinha voltado ao mundo real. Ainda hoje sorrio sozinho quando me lembro daquela noite.