
Esta semana me deu vontade de desenterrar algum CD que eu não ouvia há muito tempo e ir para o trabalho ouvindo. Vasculhei minha coleção cheia de pó graças ao MP3 e desenterrei Mais do Mesmo, a coletânea dos maiores sucessos da Legião Urbana. Sempre que alguém me perguntava se eu gostava de Legião, eu respondia que tive uma fase, especificamente entre os 14 e os 16 anos de idade, que eu adorava, mas que depois eu comecei a enxergar que aquilo não era tão grandioso assim. Pois bem, continuo afirmando que trata-se de uma banda "overrated", de letras ingênuas e melodia fácil, mas não vejo mais a carga pejorativa que via antes.
Se batermos e coarmos a obra de Renato Russo & cia, teremos muito, mas muito bagaço pra jogar fora. Rimas forçadas, letras mal-acabadas, melodias fáceis demais, mensagens baratas em lugares errados, voz desafinada, enfim, a obra é repleta de equívocos. Existem historinhas ingênuas e bonitinhas, como em Eduardo e Mônica, engajamento rebelde de boutique, como em Geração Coca-Cola, lições de moral, como em Dezesseis, e até mesmo auto-ajuda, como em Pais e Filhos, mas apesar disso tudo, cheguei à conclusão de que ainda é um trabalho que não devo deixar apenas na memória de meus 14 anos.
Dos 16 para cá, naturalmente comecei a ler coisas mais densas, assistir a filmes mais complexos, ver peças teatrais mais profundas, ouvir músicas mais elaboradas e experimentais, mas às vezes sinto um pouco de falta daquela ingenuidade que hoje percebo que não era ruim, ou ao menos não tão ruim. Pelo contrário, percebi que as pessoas ainda gostam da Legião porque não apenas decoram facilmente seus hinos adornados por sua bateria pesada, que impõe seu ritmo como um instrumento de protesto involuntário contra o mundo pós-moderno. E também não é porque elas admiram a sabedoria rala e prepotente de Russo (embora exista muitas pessoas que realmente o idolatrem, infelizmente).
As pessoas ainda ouvem e ainda gostam porque ainda se identificam de alguma forma com essa ingenuidade, com esse libertarismo. Isso porque ainda não aprenderam a viver plenamente na pós-modernidade, e porque esses hinos de letra fácil e coração aberto são um refúgio do mundo desgovernado que criamos. Um dia talvez saiamos dessa toca, mas enquanto isso, muita gente ainda vez ou outra voltará para casa sozinho em seu carro cantando em voz alta canções como Eu Sei e Há Tempos enquanto espera no congestionamento, como eu fiz essa semana. E isso não terá feito mal nenhum, embora não tenha feito nenhum bem também.