O presidente Lula chegou à África e declarou que lá era "limpo" e que, por isso, nem parecia a África. Pois em "Diamante de sangue", de Edward Zwick, Serra Leoa não é um lugar limpo. Ao contrário, é bem sujo, no melhor estereótipo africano que temos nas nossas mentes. É uma tendência de uns dois anos pra cá Hollywood fazer filmes-denúncia engajados naquele continente. Vi três: esse, "Hotel Ruanda" e "O jardineiro fiel". Comum a todos é a mea-culpa ocidental (ou primeiro-mundista) que existe pois não fazemos nada para ajudar a África.
Diamantes são bonitos e, quando bem lapidados, têm um brilho branco intenso e podem valer muito dinheiro. No filme de Zwick somos levados a conhecer o tráfico dessas pedras que financiou a guerra civil em Serra Leoa na década de 90. Como bom seguidor dessa estética em voga nas produtoras de Los Angeles, além do caráter documental somos brindados com grandiosas cenas de ação. Em geral, se não fosse o fundo político, seria mais um filme com explosões, mocinhos e bandidos. O grande problema é que nem um lado e nem outro se sobressai, mantendo o filme num limbo pouco descritível. Ele simplesmente vai acontecendo.
Leonardo DiCaprio é o contrabandista-malvado-porém-com-coração, Jennifer Connelly é a jornalista-bonitona-denunciadora-da-maldade-do-mundo e Djimon Hounsou é o africano-bom-selvagem. O roteiro tem belas metáforas, como a do sangue que se mistura à terra vermelha e a do terceiro mundo sendo aplaudido pelos poderosos.
Estou esperando os primeiro-ministros europeus pedirem desculpas públicas aos moradores da África por tudo que tem acontecido naquele continente desde o neo-colonialismo. Um espetáculo midiático que não servirá para nada além de capas de jornais. A personagem de Connelly consegue sua matéria especial na revista em que trabalha, cheia de fotos em preto e branco, que provavelmente ajudará a mudar os consumidores de diamantes e fazer com que as empresas monopolistas dessa área repensem sua forma de atuação.
A indústria de diamantes lançou um
site com vinte e três fatos sobre a produção e venda de diamantes. Você sabia que cinco milhões de pessoas tiveram acesso a cuidados médicos graças às receitas geradas com a comercialização desse mineral? Enquanto isso, a De Beers, maior monopolista do mercado, continua controlando a oferta e, conseqüentemente, os preços.
Tem vezes que me sinto num brinquedo de parque de diversões onde a gente entra, vê as mazelas do mundo, lê um texto bonito na tela (tipo "não compre diamantes de zonas de conflito") e sai pensando que o planeta é horrível, mas que se eu seguir as dicas do texto bonito, tudo será melhor. E então fico feliz com as boas possibilidades de futuro.