A discussão é de dois meses atrás, mas achei interessante trazê-la para o Coletivo, ainda que fora de
timing. John Sutherland
está chocado com a crítica literária na internet – e ele não é qualquer um pra gente simplesmente ignorar. Além de colunista do Daily Telegraph, é professor emérito do University College de Londres e especialista em ficção vitoriana, literatura do século XX e história da editoração. É um cara de respeito.
Sutherland parece não gostar de internet, ou pelo menos parece não gostar dos usuários que criam conteúdo de forma amadora. Em 2004 foi inventado o termo "Web 2.0" para classificar o que seria um avanço na rede como a conhecemos. Esse avanço é simbolizado por sites comunitários, wikis, redes sociais etc. O professor
criticou, em agosto passado, o usuário do You Tube
geriatric1927, que envia vídeos ao site contando sobre sua vida. O simpático senhor de Leicester tornou-se uma celebridade ao explicar sua atuação como mecânico de radares na 2ª Guerra, entre outras coisas.
Sad to say, but the next e-bulletin of geriatric1927, aka Peter of Leicester ("hello You-tubers") may well be visited by more people than read this newspaper. Or the Sun, even. (...)
When future historians look for the epithet to describe our times (as in "The Aspirin Age", "The Me Decade") the term that will fit best is "Banality". (...)
O professor recebeu vaias pelo que escreveu no artigo do Guardian, mas não é disso que vou falar. Ele está chateado com o baixo nível das críticas que encontramos nos blogs e sites por aí. É um tanto de gente sem formação e sem academicismos que o acabou deixando preocupado (ou "chocado", como no texto original) e achando que algo precisa ser feito. Como os leitores vão saber se um livro é realmente bom se não há por trás da crítica uma pessoa que estudou anos e anos para estar apta a dar vereditos? Não é confiável acreditar no que um simples leitor como eu e você anda escrevendo, não é mesmo?
O mesmo pode ser aplicado a qualquer crítica na internet. Fora as literárias, tem gente escrevendo em blogs sobre músicas e filmes e, se duvidar, sobre comida também. Sobre vinhos e dança, talvez. O fato é que geralmente são pessoas comuns e isso dá medo pois só se pode confiar no que a Ilustrada ou o Caderno 2 falaram.
Um sintoma da impopularidade dos críticos está bem no comecinho de "
O Crocodilo", numa cena engraçadíssima. Nela, uma chef de cozinha joga lagostas vivas e água fervente no rosto do crítico que falava mal de sua comida. Ele grita, pede para que ela pare e arremata: "Eu perdi meu olfato e meu paladar há muito tempo! Eu não sinto o gosto da comida e falo por falar!"
Um dos motivos para as pessoas escreverem críticas, segundo John, é a popularidade. Um cara escreve na Amazon sob um pseudônimo-trocadilho bizarro, Duffbert. Sobre ele, o professor diz:
Duffbert calculates that he is now ranked in the top 250 of Amazon's regular reviewers. He has power. He is cultivated by the major publishers in his field. Authors consult him. Duffer he may be, but Bert can move books. He loves it. (...)
Sinta a fina ironia inglesa e veja como é engraçado Sutherland dizer isso, pois me parece que ele ele próprio se sente poderoso e tem medo de se tornar impopular. Alguém se importa com essa discussão e chegou até aqui?