o coletivo é, acima de tudo, um compêndio do moderno, da necessidade do consumo e da modernidade absurda.

nós somos contra o laico, o neutro, o morno. por isso, a glória está em nosso altar. a glória é um ícone do paganismo, a glória é polarizante, a glória é quente. a glória é uma nova tendência global.

em tempos em que o minimalismo está em voga, trazemos um pouco de vazio para a comunidade que carece de um pouco de abstracionismo barato.

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
A Casa dos Budas Ditosos

Quinta-feira passada, ao final dos merecidos aplausos para mais uma apresentação de O Avarento, Paulo Autran pediu um segundo a mais da atenção da platéia para recomendar A Casa dos Budas Ditosos, monólogo interpretado por Fernanda Torres e que atualmente divide o mesmo palco do Teatro Cultura Artística com o espetáculo de Autran.

Muito mais do que política de boa vizinhança, o ator estava indicando uma das obras mais libertárias dos últimos tempos. O espetáculo adaptado do livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro conta a vida sexual de uma mulher de 68 anos que viveu sua vida inteira em função do prazer, sem nenhum pudor.

Ao sair da sala, ouvi um casal saindo e comentando sobre este espetáculo:

- Fulano assistiu essa peça que ele indicou, e disse que é pornô.
Imediatamente comecei a rir. Como pode um espetáculo ser "pornô" se a protagonista fica as duas horas da peça sozinha, sentada em uma cadeira, apenas falando para a platéia, mostrando apenas as pernas do joelho para baixo? Intrigado com a definição, pesquisei a definição de pornográfico no Houaiss. Se for no sentido de "explorar o sexo tratado de maneira chula", definitivamente a peça não é pornô. Agora, se interpretarmos como uma peça "que demonstra, descreve ou evoca luxúria ou libidinagem", aí sim, é uma peça absolutamente pornográfica, no sentido menos pejorativo possível da palavra.

De qualquer forma, se o texto é considerado bastante avançado até mesmo para pessoas de mente mais aberta, é lógico que tudo aquilo que aquela senhora baiana conta só poderia soar como um escândalo agressivo aos ouvidos da classe média-alta paulistana que vai ao teatro para pagar dez reais numa taça de champanhe. As histórias que ela conta seriam suficientes para que muita gente saísse da sala logo nos primeiros 20 minutos de encenação.

Mas não é exatamente isso o que acontece (senão esta terceira temporada não estaria sendo prorrogada, e jamais estaria no palco do elitista Cultura Artística). Fernanda Torres se entrega de uma forma tão intensa à personagem, dando a ela um senso de humor e uma presença de palco tão impressionantes, que a platéia fica cativada do início ao fim do espetáculo, hipnotizada pelo relato fantástico daquela libertina.

Ontem assisti ao espetáculo pela segunda vez - a primeira havia sido no Centro Cultural Banco do Brasil. Apesar do teatrão de mais de mil lugares, o espetáculo continua fantástico. A transposição do relato para o formato de palestra faz ainda um pouco mais de sentido do que na primeira temporada, embora as luzes não se acenderem mais sobre a platéia e embora eu tenha sentido falta de ficar mais perto do palco, o que era possível até nos piores lugares do intimista CCBB.

E a platéia do Cultura Artística é um espetáculo à parte. Logo na entrada é possível observar, como de costume, hordas de velhinhas com roupas brilhantes, jóias aparentes, todas maquiadas e perfumadas, além de casais de todas as idades (curioso como o teatro comercial é um programa de casais e velhinhas...). Muitos estavam ali para ver especificamente aquela peça por ser um sucesso de bilheteria com uma atriz famosa da Rede Globo, e sobretudo por ser uma comédia. Perfil de público padrão do teatrão comercial.

Então o espetáculo começa, a personagem se senta em sua mesa e a platéia começa a se deliciar com as histórias extremanente bem-humoradas de sua primeira relação com um garoto na fazenda, seu desvirginamento pelo professor bigodudo, as peripécias que aprendeu com sua melhor amiga, Norma Lúcia... até o momento em que ela começa a falar de incesto. Primeiro ela fala do tio, a platéia estranha mas ainda se diverte, chegando a aplaudir em cena aberta a versão sexual que ela canta de Eine Kleine Nachtmusik de Mozart.

E eis que ela começa a falar de suas relações sexuais com o irmão Rodolfo. Por aproximadamente uns dez minutos a platéia fica no mais absoluto silêncio. Se as luzes estivessem acesas, certamente a atriz se divertiria com uma platéia inteira ruborizada, por alguns minutos intermináveis. Depois ela volta a falar coisas mais amenas e a platéia volta a gargalhar em sua zona de conforto, mas entre uma gargalhada e outra, ela solta alguma como “(...) porque toda mulher já deu o cu (...)”, e a platéia pudica reage com risadinhas abafadas e incômodas.

São essas freqüentes alfinetadas nos tabus que fazem da obra tão fantástica, com a sensibilidade de não agredir, apenas provocar – e muito. A platéia, queira ou não, é forçada a encarar diversos tabus sexuais que são extremamente fortes na nossa sociedade: monogamia, heterossexualidade, castidade, incesto... Fica a cargo da platéia se vai pensar e questionar seus próprios bloqueios, ou se vai simplesmente engavetar aquela peça junto com todas as porcarias que viu ali naquele mesmo palco e partir pra pizzaria em seguida.

Mas independente desta escolha da platéia, a arte já terá cumprido o seu papel com grande sucesso: o de provocar. Neste caso, de forma primorosa, com humor e muita elegância.

Maurício Alcântara | 16:43

Comentários:
gostei muito da resenha.

sou fã de fernanda torres. ela já é normalmente fantástica e nessa peça, mais ainda. a forma como ela entra no personagem é algo absurdo. foi ótimo assisti-la novamente nesse papel para relembrar todas as risadas e discussões provocadas pela primeira vez, no ccbb.

o grande destaque do cultura artística é sua freqüência. ao sair da sala, olhava para as velhinhas e tentava imaginar o que aquelas senhoras pensavam durante uma peça como aquela. será que tiveram vergonha? será que se reconheceram em algum momento?

talvez eu só saiba quando for um velhinho, mas com certeza não ficarei ruborizado. quem sabe, animado com a provocação.
Blogger Elder Costa | 25 janeiro, 2007 20:28  
ahãn!
"talvez eu só saiba quando for um velhinho, mas com certeza não ficarei ruborizado. quem sabe, animado com a provocação."
Elder, Elder, vc deve ter muita coisa escondida nesse seu corpinho!
Libere meu filho, e quem sabe um dia vc não faça um livro contando suas experiências internacionais...rs
O Mau é outro, tem uma energia enorme dentro de si...rs
Olha q essa bomba explode um dia e quando isso acontecer, ai meu Deus, vai destruir!
hahaahaha
bjs moços!
Anonymous Anônimo | 25 janeiro, 2007 23:37  
Ah! Eu quero ver. Acho que vou pagar o lugar um pouco mais caro...
Blogger naná de castro | 26 janeiro, 2007 16:38  
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