Não é à toa que São Paulo é tida como a capital cultural do Brasil, com tantos teatros, salas de cinema, museus, centros culturais etc etc etc. Mas claro que em tão vasto mar de rosas, há de se encontrar de vez em quando alguns espinhos. Alguns deles são realmente de doer. Vejamos por exemplo os teatros da região da Av. Brigadeiro Luís Antônio: com exceção do pomposo Teatro Abril, todas as outras salas exibem peças de grande sucesso junto ao grande público, sucessos de bilheteria que ficam anos em cartaz, como uma espécie de rascunho mal-resolvido da Broadway.
Mas há uma diferença gritante: enquanto a Broadway é conhecida e aplaudida mundialmente pela qualidade técnica e musical de seus espetáculos (o que aqui no Brasil só há um único teatro capaz de refletir essa qualidade técnica, o caríssimo Abril, que já trouxe Les Misérables, A Bela e a Fera, Chicago e agora está em cartaz com o Fantasma da Ópera de Andrew Lloyd Webber), os teatros da Brigadeiro são conhecidos pelas comédias pasteurizadas e requentadas por um "grande elenco" (que em 76,25% das vezes trazem Fúlvio Stefanini ou Elizabeth Savala no elenco, normalmente acompanhados por mais um ou outro ator de segunda linha da Rede Globo para trazer mais receita para a bilheteria). Atualmente, até mesmo o estilista Clodovil - ou melhor, seu lado feminino - pode ser visto em um destes teatros usando meia-calça e cantando. Para quem não conhece teatro e vai uma vez a cada dois anos (e normalmente se diz freqüentador de teatro), é um prato cheio.

Semana passada assisti à pré-estréia para a imprensa da reestréia do "sucesso de bilheteria"
Garotos de Aluguel que está dividindo o mesmo palco com o espetáculo do Clodovil lá no Teatro Brigadeiro, antigo Teatro Antônio Fagundes, antigo Teatro Jardel Filho. Confesso que tenho muito, mas muito medo de peças que se auto-intitulam "comédia musical". Quando se propõem a discutir assuntos sociais então, o medo fica ainda maior. E esta peça é o típico exemplo de que esse medo não é apenas uma paranóia sem procedência.
A história não poderia ser mais batida e previsível: quatro garotões sem emprego vêem um anúncio de jornal chamando garotos de 18 a 25 anos com tais e tais características. Quando chegam no local para a entrevista, sem saber do que se trata (bobinhos...) dão de cara com o auxiliar de cafetinagem Fernando, típico estereótipo de bicha, praticamente uma reciclagem do estereótipo de cabeleireiro de salãozinho fuleiro ou de vendedor de loja chinfrim da Rua das Noivas.
Fernando, com sua roupa brilhante e seu cabelo de Elba Ramalho depois da chuva é a graça da peça (ou seria a desgraça?). Cerca de 89,21% das piadas ou situações engraçadas (ou que deveriam ser engraçadas) vêm dele. E o ator faz seu personagem muito bem para a expectativa do público geral que estava ali naquele teatro naquele fatídico dia.
Logo chega Glorita, a cafetina dona da agência de garotos de programa. Também estereotipada ao extremo, é uma (ex-)puta com fogo no rabo e poder. Algumas piadinhas mornas, alguns nus forçados no melhor padrão Rede Globo ("estou nu mas não mostro nada") que tiravam gritos estridents da platéia que ria compulsivamente a cada sacadinha genial que já devo ter visto em pelo menos umas 5 outras peças do mesmo estilo.
Então começa uma verdadeira enxurrada de cenas e personagens totalmente desconexos e desnecessários. Uma prostituta "concorrente" da cafetina entra no palco, discute com a protagonista por 1 minuto, sai de cena e nunca mais volta, em cena nenhuma, nem a personagem e nem a atriz. Assim como o pseudo-gorducho (um cara nitidamente magro com uma barriga feita de papel amassado, personagem mais falso que a perna do Roberto Carlos) que aparece atrás do emprego oferecido no anúncio, dança forró com Fernando (para o delírio da platéia) e é contratado devido a seus "dotes". Também surge um cara saradão por quem Fernando se apaixona, e que entra na agência com o intuito de roubar tudo, mas conhece a cafetina, transa com ela, vai embora e também não aparece mais. Ha ainda o travesti nordestino que invade o "recinto", se estapeia com Fernando por 2 minutos, faz suas piadinhas prontas e também some.
Nenhuma das histórias que eles se propõem a contar com cada um destes personagens se conclui. Nenhuma mesmo. A maioria nem mesmo se caracteriza como uma história, de tão pobres e toscos que são os personagens. Juro que é pior que teatrinho de primário, que se inventam diversos personagens desnecessários para que nenhuma das crianças fique de fora.
Mas as duas cenas mais patéticas eu deixei para o final. Na primeira, um dos garotos decide se masturbar deitado no sofá, assim, no meio da sala de estar da agência (afinal quem não se masturba a troco de nada na sala de estar onde pode passar qualquer pessoa a qualquer momento, não é mesmo?). A cena em si já é patética principalmente devido ao "nu padrão Globo", pois ele é obrigado a fazer um contorcionismo bizarro e se masturbar deitado e virado para o encosto do sofá, para que apenas sua bunda fique à mostra para a platéia que delira de tanto rir daquilo. Então passa a cafetina, vê aquilo e se apaixona.
Algumas cenas depois, após eles terem o caso e ele a abandona, Fernando oferece a Glorita um novo garotão para substituir o anterior - outro personagem desnecessário e que não me lembro de ter tido nenhuma fala.
A segunda cena patética (e a mais patética de todas) é o momento em que um dos garotos, logo no começo, decide se matar para "ir para um lugar onde não tenha mais que vender seu corpo". Acho que ele pegou Aids ou coisa assim, mas a peça tem a proeza de não passar nenhuma informação direito, então não tenho certeza. Antes de ele dar o tiro na cabeça, teve um numero musical no momento mais dramático da peça (quando eu digo que era o momento mais dramático, estou e ao mesmo tempo não estou sendo irônico). O primeiro a soltar a voz foi Fernando, mas a tragédia começou mesmo quando Glorita abriu a boca. Cada agudo absurdamente esganiçado e desafinado arrancava urros de riso da platéia (lembrando: estamos no momento triste da peça). A atriz constrangida ainda tentava salvar seu número dando mais força para sua voz, o que só a esganiçava ainda mais, arrancando gargalhadas ainda mais altas da platéia. Naquele momento, eu senti muita vergonha por ela. Muita.
E então, pouco mais de uma hora e meia depois de eu ter entrado atrasado no teatro, depois desse circo todo, simplesmente do nada eles afastam os móveis do cenário e começa um numerozinho musical patético, com um figurino patético que, se fosse branco, eu juraria que era a abertura do Alô Cristina. A letra dizia algo do tipo "use proteção, use proteção", mas não deu pra prestar atenção direito porque estava praticamente rolando na poltrona de tanto rir.
Enfim, semana passada vi a pior peça de minha vida mas me diverti horrores. Vai ver até que a peça nem é tão ruim assim, mas posso não ter gostado porque perdi o comecinho, afinal cheguei atrasado. É, vai ver que é isso, não gostei porque cheguei atrasado. Só pode ser.