
Domingo à noite, sessenta pessoas embarcavam em dois ônibus turísticos no Memorial da América Latina. Vinte minutos depois, os ônibus entravam em um canteiro de obras debaixo do Cebolão, complexo viário localizado sobre a confluência dos rios Pinheiros e Tietê, e que interliga as marginais de ambos os rios com a rodovia Castelo Branco. Os passageiros desembarcavam e se dirigiam à malcheirosa margem do Tietê, onde um barco, o Almirante do Lago, os aguardava todo apagado.
Apreensão, ansiedade. Passa pelo rio uma lancha conduzida por um índio e carregando um homem morto em uma forca. É o início de BR-3, o quarto espetáculo teatral da companhia paulistana Teatro da Vertigem, que já havia apresentado sua aclamada Trilogia Bíblica em diversas igrejas, hospitais e presídios ao redor do mundo.
Surge do barco Evangelista, a anfitriã, que nos chama a “um lugar seguro”, uma igreja evangélica instalada em um dos três andares da embarcação. Os minutos que seguem são arrepiantes: uma trilha sonora muito alta conduz o primeiro passeio do barco pelo inóspito cenário das próximas 2 horas e meia. Mais que um rio quase morto devastado pela poluição e pela urbanidade desenfreada de São Paulo, este passeio nos mostra um cenário que é invisível a quem passa pela região de carro: estruturas gigantescas com passarelas, barragens, tubulações e paredões de concreto.
Ali é iniciada a saga de Jovelina, uma nordestina que perde o marido na construção de Brasília, muda-se para São Paulo e torna-se chefe do tráfico da favela da Brasilândia. É em torno de sua família que a peça traduz os estudos e pesquisas que a companhia fez em sua viagem pelo interior do país em 2004, objetivando compreender a questão da identidade brasileira e das raízes do povo. Da periferia urbana à capital da nação ao extremo norte, o espetáculo permeia temas densos e complexos em nossa sociedade: tráfico, poder, corrupção, identidade e sobretudo religião, tema recorrente no trabalho da companhia. Eu consideraria este espetáculo como a quarta parte de uma quadrilogia se fosse criado com base na Bíblia.
Os cheiros, o frio, o vento, e para alguns até mesmo o sabor misturam-se às imagens e sons, fazendo do espetáculo uma emocionante e inesquecível experiência sensorial por mais de 4 Km pela veia suja da cidade. E o rio, que em um primeiro momento é visto como um imenso esgoto a céu aberto, depois é percebido como um rio, doente, mas ainda sim um rio. E este cenário insólito não é pura firulice gratuita: o rio é quem conduz o espetáculo, é a trajetória dos personagens, é o tempo, a sujeira e a instabilidade do caminho. É o protagonista e o vilão. Espetáculo brilhante, fascinante e obrigatório.
