Em 1990 estreava na TV americana o seriado de suspense Twin Peaks, em que a garota mais popular da
high school de uma pacata cidadezinha é encontrada morta embrulhada em sacos plásticos à beira do rio. Mais do que apenas um seriado, era o precursor de outras séries de investigação de grande sucesso, tais como Arquivo X ou CSI, e trazia uma marca inconfundível: foi criada e dirigida por um dos diretores mais excêntricos de Hollywood: David Lynch, famoso por seus filmes que parecem não ter nem pé nem cabeça. Cheia de intervenções oníricas e de linguagens obscuras e pouco lineares, sua obra traz grandes títulos que até hoje gera multidões de fãs e de odiadores, como Veludo Azul, A Estrada Perdida, Mulholland Drive e INLAND EMPIRE, obra mais recente e que logo mais está chegando aos cinemas.
Ao contrário dos filmes, Twin Peaks apresenta mistérios muito mais voltados para as tramas que se enrolam e desenrolam ao longo dos episódios, do que para as pirações características do diretor (que apesar de serem em pequena quantidade, ainda existem e fazem toda a diferença). Isso acaba tornando a série mais didática e de fácil digestão, mas ainda assim seu estilo é facilmente perceptível (com direito inclusive a trilha sonora de Angelo Badalamenti, o grande responsável por boa parte do clima sombrio de tudo o que Lynch faz).
Ao longo dos oito episódios (incluindo o piloto de 1h30 de duração), a história vai muito além do misterioso assassinato de Laura Palmer: vão sendo reveladas tramas obscuras que envolvem prostituição, sociedades secretas, tráfico de drogas, crises familiares, especulações imobiliárias, adultérios e romances em segredo.
Mas o melhor da série não está necessariamente no suspense: para mim, está na composição dos personagens, em sua maioria excêntricos e construídos com sutileza e muito bom humor. O protagonista é o agente especial do FBI Dale Cooper, que utiliza métodos muito pouco ortodoxos para realizar suas investigações. Juntam-se a ele nas investigações os policiais locais que, de tão pacata que é a cidade, não estão acostumados com casos das proporções dos acontecimentos recentes, o que os torna hilários. Há ainda personagens secundários fantásticos, como a mulher caolha obcecada em fazer com que os trilhos de suas cortinas sejam 100% silenciosos, ou ainda a enigmática senhora que aparece o tempo todo abraçada a um tronco de madeira, e que abre cada episódio com uma introdução filosófica.
Esta primeira temporada de Twin Peaks (a única lançada no Brasil em DVD) é obrigatória para quem gosta ou deseja conhecer um pouco mais sobre o universo do diretor David Lynch. E para os que não gostam, é uma oportunidade para conhecer um Lynch menos hermético e bem mais sarcástico e divertido. Mas é bom já se preparar para uma temporada que termina com muito mais perguntas do que respostas, marca registrada do trabalho do diretor.