o coletivo é, acima de tudo, um compêndio do moderno, da necessidade do consumo e da modernidade absurda.

nós somos contra o laico, o neutro, o morno. por isso, a glória está em nosso altar. a glória é um ícone do paganismo, a glória é polarizante, a glória é quente. a glória é uma nova tendência global.

em tempos em que o minimalismo está em voga, trazemos um pouco de vazio para a comunidade que carece de um pouco de abstracionismo barato.

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domingo, 16 de julho de 2006
Uma tarde, três museus
Ontem decidi dar uma volta pela cracolândia, região degradada do centro de São Paulo que está renascendo como um dos mais importantes pólos culturais da cidade. Deixei o carro no estacionamento da fabulosa Sala São Paulo, uma das melhores salas de concerto do mundo, construída onde antes era o jardim de uma estação de trem (que ainda funciona), e que hoje é a residência da Orquestra Sinfônica do Estado. Por lá comecei meu passeio.

A primeira parada foi a Estação Pinacoteca, irmã caçula da Pinacoteca do Estado. Algumas exposições importantes em um prédio muitíssimo bem conservado, mas não consegui ficar ali dentro por muito tempo. Sou absolutamente cético para qualquer tipo de coisa sobrenatural, mas a energia negativa que há naquele prédio é muito forte, afinal ali era o escritório do Departamento de Ordem Política e Social durante a ditadura militar. Ali foram presos, torturados e mortos alguns dos personagens mais notáveis da resistência à ditadura. Passei pelas exposições sem conseguir dar atenção a elas e nem às obras – entre elas, Antropofagia de Tarsila do Amaral e alguns esboços de Pablo Picasso – depois desci até o térreio para visitar o Memorial da Liberdade, instalado em quatro celas do antigo cárcere e montado para não apagar a história daquele tenebroso edifício.

Dali, passei pela Pinacoteca do Estado. Como sempre acontece quando vou lá, a arquitetura do edifício acaba chamando mais minha atenção do que as obras ali expostas. Comecei inclusive a questionar se tudo aquilo que ali dentro é realmente arte, e se a importância artística das obras será sempre válida ou depois de algum tempo passa a se tornar apenas história. Não consigo considerar, por exemplo, uma exposição de prataria da Bahia como arte. Para mim aquilo é história, e precisa sim ser lembrada. Mas arte definitivamente acho que não é.

De lá, atravessei a rua e finalmente entrei no museu que era meu objetivo principal deste passeio: o Museu da Língua Portuguesa, instalado dentro da histórica estação da Luz. E que lugar! O MLP é um museu como os museus brasileiros ainda não aprenderam a ser, ou ao menos não haviam aprendido até então. Assim como nossa língua, é um museu vivo, interativo, muito bem equipado e organizado. Ali há uma grandiosidade e uma qualidade impressionantes em todas as atrações, com projeções que ocupam andares inteiros, painéis multimídia abarrotados de informações sobre nossa língua, e salas interativas que mais parecem instalações de grandes exposições de arte do que atrações fixas de museu. E para a primeira exposição temporária do museu, não poderia haver homenagem melhor para ser feita do que a João Guimarães Rosa.

Me impressionou a quantidade de gente, sobretudo de crianças, se amontoando e fazendo fila para ler trechos do Grande Sertão Veredas, em uma exposição absolutamente interativa e lúdica, onde é possível até mesmo ler toda a obra com as marcações do autor. Ontem infelizmente não consegui me envolver muito porque estava extremamente lotado – não sei bem porque, mas ontem a entrada era gratuita. Mas é um passeio obrigatório.

Na volta, já no final da tarde, deslumbrado com o magnífico lugar que tinha acabado de conhecer, voltei à realidade: no caminho de volta da estação da Luz até o estacionamento da Sala São Paulo, presenciei dois policiais abordando um menor de idade viciado em crack, e mais adiante, dois policiais agredindo uma moradora de rua, visivelmente também entorpecida. Então me lembrei que estava em uma região que ainda é uma das mais deterioradas do centro histórico de São Paulo.
Maurício Alcântara | 21:00

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