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O oriente médio parece ser mais uma vez o centro das atenções no universo do cinema alternativo, dito “de arte”. Só esta semana assisti a três filmes em cartaz que retratam os conflitos entre árabes e judeus, e isso me dá um referencial interessante para poder comparar as três obras.

O primeiro deles,
Munique, não chega a ser um filme alternativo, afinal trata- se de uma megaprodução de Steven Spielberg. Conta a história de um grupo de agentes secretos israelenses designados a promover uma série de atentados contra os terroristas árabes que executaram 11 atletas israelenses nas olimpíadas de Munique.
O filme mostrou-se razoavelmente maduro, eu diria surpreendente por tratar-se de uma obra de Steven Spielberg. Logicamente o ponto de vista judeu que a trama adquire por narrar o lado israelense da história acaba fazendo com que os inimigos árabes sejam caricatos e estereotipados, mas esse nem é o grande problema.
O que realmente peca em Munique é o tempo. Os acontecimentos parecem ocorrer no momento errado, cedo demais ou tarde demais. Por exemplo, tenho a sensação de que se Avner – o protagonista – começasse a questionar a natureza de suas ações antes, ou ainda mais: se ele começasse a ficar paranóico bem antes, o fluxo do tempo no filme seria mais coerente. A impressão que tenho é que houve uma certa calma durante o filme todo – muitos disseram que havia calma até demais – e nos últimos minutos, houve uma necessidade de se acabar o filme, acelerando os fatos, com uma pressa que culmina na cena mais desnecessária e constrangedora do filme.
O que estraga o filme para mim foi a cena em que Avner transa com sua mulher pensando nos atentados em Munique. Para mim aquela cena beira a grosseria, a impressão que tive é que ele estava depositando em sua mulher toda a fúria e o desgosto que ele carregava dentro dele. E pior ainda, quando a mulher, submissa e avoada, olha para ele e diz “te amo”, como se o que tivesse ocorrido ali fosse a coisa mais linda deste mundo. Um desperdício de película que faz um filme bom acabar com uma cena péssima como essa.

O segundo filme que vi foi
Paradise Now, obra palestina que narra a história de dois jovens comuns, que levam suas vidas comuns, até que são designados pelo grupo político e religioso de que participam a se sacrificarem como mártires em um atentado a bomba em Tel Aviv. Num primeiro momento, eles estão conformados com a idéia, mas depois perdem a segurança quando começam a questionar se aquele ato realmente valia a pena – e mais, se realmente haveria um paraíso aguardando por eles, como prometido. E o questionamento mais interessante é: como esse ato pode ajudar a causa palestina?
Um ótimo filme, sobretudo se imaginarmos que trata-se de uma produção palestina! Saber que aquela terra de tanta miséria e tanto sofrimento consegue ainda assim gerar artistas e pensadores faz pensar que eles ainda podem ser vistos pelo resto do mundo como mais do que apenas um monte de gente miserável aglomerada se matando por terra.

O terceiro e último filme que vi foi
Free Zone, do israelense Amós Gitai. Conta a história de três mulheres, uma israelense, uma árabe e uma americana, que se relacionam em um território neutro, de livre comércio entre todos os povos no Oriente Médio, independente de suas origens e religiões. Chatíssimo, maçante, sonolento, mas não deixa de ser um bom filme. Mas que eu não veria de novo.
No geral, ambos têm uma característica em comum: nenhum é fundamental, todos eles são facilmente esquecíveis – ficarão carinhosamente armazenado na gaveta das vagas lembranças em meu cérebro – mas todos são boas fontes de referência para se aumentar a bagagem cultural sobre a questão do oriente médio e geram algum tipo de questionamento. Se tiver que recomendar algum, fico com Paradise Now.