o coletivo é, acima de tudo, um compêndio do moderno, da necessidade do consumo e da modernidade absurda.

nós somos contra o laico, o neutro, o morno. por isso, a glória está em nosso altar. a glória é um ícone do paganismo, a glória é polarizante, a glória é quente. a glória é uma nova tendência global.

em tempos em que o minimalismo está em voga, trazemos um pouco de vazio para a comunidade que carece de um pouco de abstracionismo barato.

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006
Aconteceu na Praça Roosevelt


Da janela do apartamento de uma amiga eu poderia ficar horas e horas praticando a flaneurie, ato de observar a cidade ao redor, sem a pretensão de analisar nada, sem a idéia de tirar conclusão nenhuma, sem pensar muito. Simplesmente observar. A vista permite espiar as vidas das pessoas do prédio em frente devido aos enormes janelões, e mais ao fundo, à direita, pode-se também observar uma torre de concreto que surge em meio às copas de uma porção de árvores. Aquela é a praça Roosevelt, um dos maiores ícones da degradação urbana do centro da cidade.

Até alguns anos atrás eu não tinha relação nenhuma com aquela praça. Pra ser mais sincero, nem sequer sabia que ela existia. O mais próximo que eu já havia estado dali era no teatro Cultura Artística, pagando caro por ingressos para ver peças elitistas e de qualidade duvidosa. Mas nunca havia reparado que ali ao lado havia uma praça. Para mim era apenas mais um beco escuro e feio do centro velho. “Não passe por aqui” minha consciência certamente diria.

Mas essa imagem começou a mudar há aproximadamente três anos, quando eu estudava algo sobre a trilogia tebana de Sófocles na faculdade, em uma dessas matérias não-tecnicistas que a maioria dos alunos nunca entendia o porquê de estudar. Interessado no assunto, pesquisei em meu onipresente Guia da Folha, descobri que estava em cartaz a peça 'Antígona' em um teatrinho minúsculo ali nas imediações da República e da Consolação. Procurei no guia e descobri que o teatrinho ficava naquele beco feio e escuro, e que esse beco feio e escuro era na verdade uma praça, e que se chamava Franklin Roosevelt.

Aquela montagem foi também meu primeiro contato com a companhia de teatro Os Satyros, até então desconhecida para mim. O segundo contato veio muito mais rápido do que eu imaginava: na época eu tinha um blog onde havia postado minha crítica elogiando a montagem e, para minha surpresa, alguns dias depois chega em minha caixa de entrada um e-mail de Ivam Cabral, um dos fundadores da companhia, agradecendo por nossa visita. "Fui eu quem atendeu vocês na bilheteria." Ivam nos convidava para assistir à então nova produção da companhia, 'A Filosofia na Alcova', que acabei vendo muito tempo depois.

Mas desde a primeira peça comecei a observar (e depois acompanhar) melhor aquele espaço, e a assistir suas montagens sempre que possível. E percebi que aquele teatrinho abafado e apertado no meio da boca do lixo é na verdade um dos mais importantes pólos teatrais do Brasil, seja pela qualidade de suas montagens, pela originalidade de seus temas e processos, seja pela diversidade - não conheço nenhum lugar onde haja tantas montagens diferentes ao mesmo tempo, sempre com uma qualidade que não encontramos na maioria dos teatros da cidade – voltados para montagens fúteis em sua maioria. Considerando as dimensões dos dois espaços dos Satyros (o segundo espaço funciona há algum tempo na mesma praça Roosevelt), isso é realmente impressionante. A acessibilidade também é algo que precisa ser levado em conta: raras vezes paguei mais de dez reais para ver algo por ali.



Ontem finalmente foi a vez de ver ‘A Vida na Praça Roosevelt’, que ainda não havia conseguido assistir. O texto, da dramaturga alemã Dea Loher para o Thalia Theater de Hamburgo, é um verdadeiro estudo antropológico sobre os personagens que habitam a praça e não havia companhia mais adequada para realizar a montagem brasileira do que os Satyros.

Dea passou algum tempo observando as pessoas e a dinâmica da praça para escrever uma peça que tinha como tema “Terra de Ninguém”, a convite de seu amigo Alfons Hug, curador da Bienal de São Paulo. O resultado foi um drama melancólico, riquíssimo e despretensioso, que conta as tristes histórias de pessoas que vivem ao redor da praça: travestis, mendigos, policiais, traficantes, operários e todos os outros personagens que podemos facilmente encontrar no submundo de todos os grandes centros urbanos ao redor do planeta.

E no fim das contas, na próxima vez que eu observar da janela da minha amiga a torre da Igreja da Consolação, em meio às árvores daquele canto escuro, sujo, degradado e perigoso da cidade, me lembrarei de que existe muita vida na praça Roosevelt, graças a estes três últimos anos acompanhando a atividade teatral daquele pedaço e sobretudo à peça que vi ontem.
Maurício Alcântara | 12:26

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